
and shine, ainda que no outono!
O vaso de cristal caiu. E, de um lindo e raro objeto, transformou-se em um monte de cacos disformes, pontiagudos e até perigosos, espalhados pelo chão da sala. Exatamente como qualquer vidro ou louça comprado no supermercado da esquina. “Mas ele era tão bonito”, lamentou quase aos prantos depois de esbarrar no objeto e fazê-lo cair. Agora não mais. É comum. Normal. Ordinário. Como qualquer outro vidro produzido em série. Ela ficou triste. Juntou os pedacinhos e colocou no lixo. Melancólica, lembrou de como um dia gostou aquele vaso. Aquele vaso que, tão querido, ocupava o lugar de maior destaque na estante da sua sala. Lugar esse agora que, por não encontrar um vaso tão bonito quanto aquele, ostenta o vazio.
Cresceu acostumada a ouvir da mãe: “Menina, desce daí. Se cair, machuca”. Como toda e qualquer (boa e normal) criança fazia exatamente o contrário. “Vou subir, sim, e cair. Se cair, machuca. E daí?”. Adulta, continuou subindo. E caindo. Mas descobriu a existência do band-aid. E dele fez seu aliado. “Se machucar cola um band-aid. Cicatriza. Às vezes rápido, às vezes não. Mas cicatriza. Ou, ao menos, ajuda no processo de fechar (fechar, porque uma ferida nunca cura. Vira cicatriz e te faz lembrar a não cair no mesmo lugar, ou daquela maneira. Embora possa-sa esquecer às vezes e cair repetidamente no mesmo local e exatamente do mesmo jeito). Ela continua caindo. Tem um prazer quase orgásmico na queda. Os que a cercam sempre dizem: “Cuidado, vai machucar!”. Ela faz-se de surda. Cai. Adora o milésimo de segundo em que o chão some dos pés. A certeza de não saber o que acontecerá em seguida. E mais ainda: saber que para onde seja que for parar, ela pode sair de lá. E ir pra onde bem entender.
