domingo, 18 de novembro de 2007

rise


and shine, ainda que no outono!

era vidro e se quebrou

O vaso de cristal caiu. E, de um lindo e raro objeto, transformou-se em um monte de cacos disformes, pontiagudos e até perigosos, espalhados pelo chão da sala. Exatamente como qualquer vidro ou louça comprado no supermercado da esquina. “Mas ele era tão bonito”, lamentou quase aos prantos depois de esbarrar no objeto e fazê-lo cair. Agora não mais. É comum. Normal. Ordinário. Como qualquer outro vidro produzido em série. Ela ficou triste. Juntou os pedacinhos e colocou no lixo. Melancólica, lembrou de como um dia gostou aquele vaso. Aquele vaso que, tão querido, ocupava o lugar de maior destaque na estante da sua sala. Lugar esse agora que, por não encontrar um vaso tão bonito quanto aquele, ostenta o vazio.


Cresceu acostumada a ouvir da mãe: “Menina, desce daí. Se cair, machuca”. Como toda e qualquer (boa e normal) criança fazia exatamente o contrário. “Vou subir, sim, e cair. Se cair, machuca. E daí?”. Adulta, continuou subindo. E caindo. Mas descobriu a existência do band-aid. E dele fez seu aliado. “Se machucar cola um band-aid. Cicatriza. Às vezes rápido, às vezes não. Mas cicatriza. Ou, ao menos, ajuda no processo de fechar (fechar, porque uma ferida nunca cura. Vira cicatriz e te faz lembrar a não cair no mesmo lugar, ou daquela maneira. Embora possa-sa esquecer às vezes e cair repetidamente no mesmo local e exatamente do mesmo jeito). Ela continua caindo. Tem um prazer quase orgásmico na queda. Os que a cercam sempre dizem: “Cuidado, vai machucar!”. Ela faz-se de surda. Cai. Adora o milésimo de segundo em que o chão some dos pés. A certeza de não saber o que acontecerá em seguida. E mais ainda: saber que para onde seja que for parar, ela pode sair de lá. E ir pra onde bem entender.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

T.oda p.roblemática m.omentaneamente

Uma vez por mês ela não gosta de ser mulher. Não gosta do aspecto inchado, entumescido que arredonda seu ventre. Da pele que brilha. Das erupções que nenhum artifício consegue esconder. Do estômago que recusa-se a aceitar toda e qualquer coisa que entra pela boca. Da vontade de comer doce e pão. Do humor instável. Do astral bipolar. Da vontade de correr. Da vontade de nada fazer. De colocar tudo pra fora. De não deixar nada escapar para fora (da alma). Da insônia. Da dor nas pernas. Do choro que vem e vai sem avisar. Do corpo que na pele não mais cabe.

sábado, 20 de outubro de 2007

Máscara

Ela tenta disfarçar a palidez da face com maquiagem. Blush. Rosa. Tenta, inutilmente, simular ares de verão na pele que começa a descolorir sob o céu cinza do outono. A decisão de escurecer os cabelos na última meia hora a deixara ainda mais branca. Ela (quase) se arrepende. Nos lábios quase incolores uma leve camada de batom cor-de-boca-como-dita-a-moda-na-revista e outra de gloss (diz a mesma revista que os faz parecer mais carnudos). O que fazer com a tristeza dos olhos? O espelho não responde. Ela desiste e vai dormir.

domingo, 7 de outubro de 2007

É assim e pronto


Eu acredito em contos de fada. E ponto final. É meu carma. Eu acredito que, se estiver em perigo, você virá num cavalo branco (OK, não necessariamente num eqüino alvo de raça nobre. Pode vir do jeito que quiser) pra me salvar. Eu acredito que, de repente, você vai me abraçar e, em seguida, me girar no ar, como num final feliz de uma fábula. Eu acredito que ouvirei 'eu te amo' 24 horas. Eu acredito em tragédias com reviravoltas espetaculares, exatamente como nos livros. Eu acredito no jogo de contente da Pollyana (Sim, eu acredito piamente num clássico infanto-juvenil de 1913 escrito por uma novelista norte-americana careta). Eu acredito, eu acredito, eu acredito.

And life goes on...

- Vamo pular?
- Ah, não sei. E se machucar?
- Que nada. É muito bom, você vai ver.

(Extraído da descrição da comunidade Rompante)